[CENA] 03 ― Sonhos e inocência

A cidade cinza que nunca para. Onde pessoas se perdem em seus celulares e não observam mais o entardecer. Mesmo os dias têm ficado cada vez mais tristonhos. Você não cumprimenta as pessoas e elas não te reparam, você fala cada vez menos e não se vive mais para aproveitar o que há no mundo, apenas tentar conseguir mais coisas e ser alguém a quem os outros irão invejar… Invejar por motivos que nem mesmo eles podem entender, mas que foram condicionados a pensar que é aquilo que devem querer ser.

Eu ando. Eu paro. Sob meus pés há algo abandonado. Um olhar perdido me leva a lembranças antigas. Há muitos anos havia brilho em meus olhos, um brilho que parecia que jamais se apagaria, mas eu estava enganado. A fase das brincadeiras se perdeu com o passar rápido dos anos, estou perdido em um mundo que não sei mais o que é. As pessoas passam e não se incomodam em pedir desculpas ao esbarrar em mim.

Abaixo-me e apanho do chão o objeto de minha atenção. Um velho urso de pelúcia. Olhos azuis de botão, uma gravata rosada presa ao pescoço e o pelo castanho… Será mesmo castanho? A sujeira poderia tê-lo feito perder sua cor real… Seria ele branco? Ou a chuva constante das ruas lavou sua cor e o deixou opaco? Com as mãos eu tento tirar um pouco da poeira.

Olho para cima, a chuva finalmente parou. As pessoas não se deram conta disso, mas eu percebi. Se alguém parasse acharia graça ― ou errado ―, um adulto apanhando um brinquedo velho ― um pedaço de lixo, elas diriam ― do chão. O pequeno urso tinha um bolso em suas costas; alguns pensariam que não caberia nada para se guardar de valioso ali e o jogaria de volta ao chão… Já eu, sorrindo, abri o bolso e encontrei o tesouro que alguma criança tinha depositado para quem encontrasse seu amigo: ali estavam guardados sonhos e esperanças. Os sonhos que o mundo nos fez perder.

Fechei o bolso do urso, guardei-o dentro do meu casaco e voltei para casa. Abandonei o emprego na empresa horrível que eu detestava e lavei o urso, e enquanto ele secava, eu me banhava. Arrancando de mim cada pedaço daquela tristeza que trazia comigo há anos. O urso e eu secos, liguei o computador. Abri o editor de textos, deixei o urso ao lado do aparelho e comecei a escrever. Recuperando o sonho de fazer um mundo melhor, eu passei para a página em branco os meus sonhos que, há muito, estavam perdidos.

“Para que todas as crianças não se esqueçam de sonhar quando crescerem”.

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