[CENA] 10 ― Nem sempre heróis vencem…

Lá estava ele.

De pé, sozinho. Mantendo sua postura sem demonstrar fraqueza. Seu corpo tenso escondia a certeza que sua mente tinha: a certeza de que uma nova queda se aproximava e que, em breve, não conseguiria mais se reerguer. Não por cansaço, mas porque não haveria uma nova oportunidade.

As chamas se alastravam pelo ambiente, o calor causticante consumia o oxigênio, impossibilitando novas forças de surgirem nos pulmões do combatente. A fumaça negra ocultava o terror ali presente; o fogo não era comum… Queimava mesmo que não houvesse mais o que se queimar e era só o que se ouvia. Nenhum grito mais. Nenhum som exceto o do crepitar das chamas. Os gritos de antes foram silenciados pelo horror. Quando o fim chega é para todos…

Os que antes o apoiavam se desfizeram. Derrotados. Destroçados. O odor da morte seria muito, não fosse a adrenalina que o impedia de reparar; só o permitia tentar ficar vivo. A mão segurava firme em torno das tiras de couro no cabo da espada, a velha lâmina fervia contra o vermelho a frente. Lutava, então, para salvar aquilo que já não mais poderia ser salvo. Apenas a honra o mantinha ali, sem qualquer menção a uma fuga. Não seria capaz de abandonar uma batalha quando todos os outros caíram. Não seria julgado por eles, mas por si mesmo. Não conseguiria viver com tal vergonha. Só o que podia fazer era tentar se defender.

Os olhos castanhos refletiam o brilho da luta, não enxergavam mais o oponente, só uma sombra turva por entre as flamas. Diante disso, não sabia o que enfrentava. Não mais sabia se era o mesmo terror que começara a desgraça ali.

Dor.

Uma dor aguda. A mão afrouxara, a espada fugira do aperto.

Indefeso.

A vida passava rápida pelos olhos, como imaginava que aconteceria quando chegasse sua hora, batalhas vencidas, risadas gastas, prantos perdidos em noites gélidas; lembrou-se da primeira vez em que ajudou alguém, a primeira vez em que venceu… Não era a sensação que tinha ali. Só o que tinha era a esperança de uma morte rápida e honrada. Nenhum arrependimento, viveu da maneira que queria, viveu como se devia viver um guerreiro ― pela honra da espada e pela força de sua honestidade.

A dor lancinante o fez tossir, sangue escorria por sua boca e pela barba crespa. Momentos antes de sua morte ele viu. Viu o que seu rival não sabia. A morte era justa, encontrava bons e maus. Até seu adversário se encontraria com ela um dia, pelo fio da espada de outro ou pelo fim natural, penaria como todos os outros.

Sorriu.

Mesmo com o corpo trespassado pelo metal quente de sua própria lâmina, a morte não era desagradável. Era só mais um caminho. Um caminho tranquilo que todos deveriam, um dia, traçar.

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