[CENA] 14 ― O que faltava

Ela vestiu-se de nudez ao acordar. O quarto apertado no prédio esmagado estava em silêncio. Os discos de vinil jogados sobre o chão, espalhados fora de suas capas. O tocador elétrico estava fora da tomada. Ligou-o. Um disco girava e girava enquanto a agulha tentava tocá-lo.

Ela bufou. Aquela porcaria… Sabia que não devia ter comprado daquele pé-rapado no beco, mas precisava tanto de um. Precisava da música como o corpo precisa de água. Máscaras de muitas culturas a encaravam do alto da parede. Riam. Choravam. Assustavam.

Evitando os discos, pisando os papéis espalhados e ignorando as taças de vinho ― principalmente a segunda… Abandonada há tempos por alguém que jamais voltaria a colocá-la junto aos lábios ―. Ela debruçou-se sobre o parapeito da janela. O cinzeiro estava cheio, mas isso não a impediu de acender um novo cigarro e ir jogando suas cinzas nele.

A vista?

Uma parede alaranjada. Outro prédio tão espremido quanto o dela. Nenhuma janela. Estava de costas para outro universo, outras vidas talvez imaginassem o que poderia estar acontecendo ali. Ela olhou para baixo e viu apenas jornais velhos e lixo jogado. Algo se mexeu. Ela julgou ser um mendigo. Sentiu um aperto no peito.

Era o que faltava.

Correu e, ainda nua, apanhou o sax da caixa e soprou.

Ela encontrara aquilo que tinha escapado. Ou, quem sabe, não tinha sido ela a ser encontrada?

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