[CENA] 17 – Sangue

Sangue verde.

A casa de shows.

O lugar estava cheio, mesmo para um pequeno bar underground no subúrbio. Não era como o Princesa, aonde caçadores e a escória se encontravam para beber e discutir, aquela casa de shows era o local onde os jovens ― em sua maioria os que não conseguiam entrar no Princesa ― iam para ouvir música e reclamar de suas vidas. Alguns poucos poderiam estar no Princesa, mas preferiam estar ali – dizem as más línguas que o saudosismo influenciava em suas rotinas.

A garota entrou naquele lugar sem saber no que se metia. Talvez ela se arrependesse ao final da noite, mas pode ser que não. Não se deve tomar como fatos o que é apenas especulação.

Ela era, por falta de definição melhor, a ovelha negra de sua família. Discutia com todos sobre tudo. Tatuagens e piercing, no lábio e outro na língua – modificações feitas apenas para incomodar o velho pai. O cabelo era comprido e do negro ia mesclando-se em um roxo escuro. A maquiagem azulada lembrava o anoitecer. Vestia-se com uma longa saia negra e botas de couro. Uma camiseta de banda escondia seu busto mediano, fazendo-o parecer menor. Essa era Cecille.

Cecille não conseguia se manter longe de confusão. Dizia que a confusão era dela, como uma amante insaciável. Naquela noite aquilo se provaria como um pensamento equivocado.

Sua pele era negra, assim como seu cabelo e olhos – sem qualquer brilho vivo. As orelhas expostas através dos cabelos eram pontudas, assim como os caninos que se mostravam de seu sorriso sedutor. Ele vestia uma camisa de flanela vermelha e um jeans rasgado. A gola levantada escondia seu pescoço, mas ela sabia que isso não era algo inconsciente, ele escondia uma cicatriz ali. Ele a olhava enquanto, do alto do palco, tocava seu baixo cor-de-sangue. O ritmo era calmo, o baixo destacava-se mais do que os outros instrumentos, e Cecille estava sentada próximo ao balcão.

Quando a música terminou, ela se virou para o palco e viu os músicos descendo. Não agradeceram a presença do público ou os aplausos, apenas desceram. O garçom serviu a ela uma bebida, disse apenas que era uma cortesia de alguém. Era uma bebida estranha, parecia vinho, mas era mais adocicado. Lembrava o gosto ferro, mas também poderia ser alguma outra bebida alcoólica, quem saberia?

Instantes depois alguém sentou ao seu lado.

Era o baixista que vira antes.

Ele sorriu.

Ela desviou os olhos para a bebida e, involuntariamente, tirou o cabelo do rosto para que ele a visse. Ela não tinha intenção alguma de deixar que ele a tocasse.

― Oi ― a voz dele era grave e rouca, pronunciada quase num sussurro. ― Que acha dessa bebida?

Ela permaneceu em silêncio. Ruborizada.

― Bem, apreciaria um obrigado.

Ela o olhou e sussurrou um fraco “obrigada”.

Não era comum ela estar assim, em geral era ela quem atacava, mas ele tinha alguma coisa que a fazia recuar. Ele flertava, ela estava parada. O silêncio foi interrompido pelo toque suave de um violão, a próxima banda começara a tocar. Ele se levantou e saiu dali.

Ela o seguiu.

Estavam no beco.

― Eu sabia que viria… ― ele sussurrou para si mesmo sem se virar.

Ela tocou-o em seu ombro. Ele se virou. O sorriso alargou-se, exibia os caninos pontiagudos.

Ela o beijou.

Guiou-a até a parede e o beijo intensificou-se. Ela sentiu o calor tomar seu corpo, mas o dele ainda era frio. Durante o beijo, ela sentiu as mãos dele percorrerem seu corpo. Eles se separaram.

― Quer mais? ― ele perguntou e sem esperar, tornou a beija-la.

Ele tomou parte das carícias como um sinal. Um sinal que o fez encostar seus lábios sobre os dela e, aos poucos, fez sua boca percorrer o pescoço da garota.

E, então, uma dor aguda.

Os dentes dele cravaram-se sobre sua pele e afundavam sobre sua carne, fazendo-a sangrar. Fraqueza. O sangue era sugado lentamente e suas forças se esvaiam.

Ela caiu.

Ele permaneceu em pé.

Abaixou-se, próximo a ela, enquanto limpava o sangue de sua boca com a manga da camisa:

― Garotinha… Deveria saber que não se aceita coisas de estranhos. ― ele tocou o rosto dela ― Ainda mais se esse estranho vier do submundo. Sangue de vampiro te faz fazer coisas que não está acostumada… E, sinceramente ― ele lambeu os próprios lábios ―, seu sangue nem era tão bom quanto eu pensei…

Ele deixou-a ali.

Ela sentiu as lágrimas correrem por seu rosto e o sangue morno continuar a escorrer pelo pescoço, esfriando a medida que encontrava o mundo aberto. Ela nem ao menos sabia o nome dele, mas sabia de uma coisa.

Estava morrendo.

Mas era mesmo a morte assim?

As horas passaram e o amanhecer veio de encontro as ruas, as pessoas saiam da casa noturna, saiam de encontro a suas vidas… Mas ninguém encontrou o corpo de Cecille. Não estava mais no beco quando o sol irrompeu com seus raios.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s