[CONTO] As lágrimas de Luna

Em minhas muitas idas e vindas pela Terra há uma lembrança em particular que deve ser lembrada. Uma que me faz olhar para o céu todas as noites e sorrir, sentir o olhar das estrelas cair sobre as paisagens do mundo. Minha barba ainda tinha sua escuridão, não os tons grisalhos de agora.

― Sabe por que a Lua chora? ― me perguntou o velho. A barriga saltava para fora da camisa e exibia a pelugem acinzentada. Enquanto ele se espreguiçava sentado no chão, eu também me sentei. Me sentei e esperei.

― A pergunta é por quem ― ele, por fim, respondeu com tons de sapiência típica de um contador de histórias. Olhou para o céu, ele encontrou o brilho das estrelas, mas nenhuma luz da personagem que contava. Cutucou a fogueira com um graveto, atiçando as chamas. ― Muitos anos atrás havia o Silêncio. A criação era o acontecimento do momento. No plano etéreo o Deus-criador encarregou Gaia de cuidar do planeta. Ela deu sua força e, assim, gerou a vida. As primeiras formas de vida.

Enquanto ele contava, as palavras pareciam dançar em minha mente, junto do embalo das chamas e formavam imagens na fumaça. A nuvem ilustrava a história junto da voz mansa do velho.

― Enquanto Gaia cuidava de criar vida, Hélios, o Sol, a mantinha ― ele me encarou pela primeira vez desde que começara a contar ― Este era o mais forte dos antigos espíritos, o mais sábio e mais poderoso. Transmitia seu calor e permitia que a vida seguisse seu caminho.

“A terceira entidade, Luna, foi nomeada para ser protetora. Uma professora que contaria aos filhos-de-Gaia como viver, o que esperar dos mares, a hora de plantar, a hora de colher, o momento de se proteger e o momento de lutar. Foi ela quem ensinou a natureza dos vivos… E ela quem se perdeu”.

Ele fez uma pausa.

Tirou do bolso da mochila um cachimbo de barro, acendeu-o. Novos círculos de fumaça, de odor mais forte que os da fogueira. E, então, continuou:

― Hélios, em seu orgulho de guerreiro, queria se casar com Luna. Esta, por sua vez, era incapaz de negar algo a alguém. Ela aceitou o capricho do Sol.

― É por ele que ela chora?

― Não ― seu rosto pareceu se esconder atrás do cachimbo, soltando mais e mais fumaça ― Luna tinha um amante. Um guerreiro quase tão poderoso quanto o próprio Hélios. Um guerreiro banhado na prata da Lua, diziam ser sua honraria para a amada. Esse guerreiro era uma estrela. Estrela Lunar era seu nome.

“Temido por sua força e também respeitado por ela. Por onde ele caminhava os jovens o procuravam, pedindo conselhos e propondo desafios, e os de mais idade o encontravam com perguntas para serem respondidas”.

― Mas o amor deles era proibido, não? Luna já tinha um marido.

― E por isso houve uma grande luta. Hélios descobriu os amantes e em sua fúria atacou Estrela Lunar. O guerreiro tentou enfrentar o Sol, mas este estava à altura das lendas da criação.

― E ele o matou?

― Pior ― respondeu ― Mesmo de orgulho ferido, Hélios conhecia a fama do adversário, não poderia matá-lo sem esperar por guerra, mesmo estando certo. Hélios expulsou Estrela Lunar do plano etéreo, mas o guerreiro jurou retornar um dia. E nesse dia tomaria a amada para si e derrotaria o Sol.

― E o que aconteceu?

― Luna intercedeu por Estrela Lunar. Deu-lhe parte de sua essência para que, mesmo longe dela, ele pudesse manter sua promessa no mundo físico. Eternizou-o. Concedeu uma nova bênção ao guerreiro amado.

― O que aconteceu com ela? ― a história criava raízes na minha imaginação e fervilhava ― o que aconteceu com Luna?

― Hélios a abandonou. Trancou-a entre as estrelas para que Estrela Lunar nunca possa alcançá-la. Sozinha entre espíritos antigos que nunca poderiam tocá-la ou ajudá-la.

Ele suspirou. Pude perceber uma lágrima escorrer de seus olhos.

― E o guerreiro?

― Ele se tornou o primeiro lobo. Anos e anos se passaram, dizem que Estrela Lunar ainda existe e que sua prole adquiriu costumes do guerreiro. É por Luna que os lobos uivam. É ela que os guia em noites perigosas e eles sempre a respeitam. A luz os guia e a escuridão os protege.

― Luna chora por Estrela Lunar… Vale a pena? ― perguntei ― Esse amor?

― O amor é a solução. É a força dos guerreiros, é a esperança dos caídos, o amor é presente em nossas vidas. E até mesmo na morte ele estará lá. Amor.

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