[CENA] 18 – Cidade da chuva

Molhado.

Droga, eu odeio quando meus pés ficam molhados.

Há muitos anos o Sol não brilha sobre essa cidade. Parece algum tipo de maldição, como se alguém tivesse feito algo muito errado por aqui e agora todos precisam pagar por esse pecado. É uma teoria.

Malditas aves.

Preciso apressar o passo. Essas aves ainda vão destruir o pouco que sobrou do guarda-chuva… Porcaria. É como se me perseguissem por algo que eu tenha feito. É outra teoria, não é? A vida é cheia dessas teorias. Ainda mais a minha vida.

Dobro uma esquina.

A pouca luz vem das paredes dos prédios. Um pior do que o outro. Alguns estão condenados, mas a prefeitura ainda não os demoliu. Que piada. Derrubar uma estrutura dessas parece fácil. Não parecem aguentar muito.

Barulhos. Guinchados. Ratos.

Ouço o choro de uma criança em uma das ruínas. Do bolso do casaco tiro a sacola que eu tanto protegia. Ali está. Uma mulher aparece no meio da sujeira. Está molhada. Tremendo de frio. Suja. A pele coberta por chagas.

Estendo o braço.

Ela apanha a sacola. Um “obrigado” é sussurrado, ela não parece ter mais do que isso de voz. Ela volta para a escuridão. Para junto do choro da criança. Da sua criança.

Como essa cidade ficou assim?

O que deu tão errado na humanidade que permitiu esse tipo de coisa?

Malditas aves…

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