[CENA] 25 – Sobreviver

O mundo foi para o inferno.

Ninguém sabe dizer quando começou de verdade, mas também não sobrou muita gente para pensar nisso. As coisas só foram piorando mais e mais. Mesmo os lugares afastados caíram junto dos grandes centros, só demoraram uns dias a mais. A coisa toda correu como uma grande epidemia. Tudo era uma grade doença e o mundo era a pessoa infectada.

As ruas estão abandonadas agora. Começou com o pânico, o caos, as notícias corriam de boca a boca mais rápido do que pela televisão ou até mesmo a internet. As pessoas abandonaram seus lares, tentando fugir. Todos fugiam, mas ninguém sabia para onde estava indo.

O céu enegreceu quando as usinas perderam seus funcionários, ninguém queria saber o que ia acontecer desde que não acontecesse perto. Assim é a humanidade. Assim era a humanidade, na verdade. As pessoas atropelaram umas as outras em uma tentativa inútil de escapar de algo que nem sabiam o que era.

Quanto tempo faz? Três? Quatro anos?

É difícil contar, não importa mais… Os dias não precisam ser contados, precisam ser vividos. Sobrevividos. Estou sozinho. Mais sozinho do que jamais estive. Não há viva-alma para dividir os pensamentos, então escrevo. Anoto meus pensamentos, escrevo para que me impeçam de enlouquecer. Uma bala. Só uma bala na cabeça e está tudo resolvido… Mas para quem?

Todos os dias eu saio de casa… Da casa que encontrei, da casa que reforcei e tomei como minha. Tinha uns deles ali. Acho que deviam ser uma família, o pai era gordo e tinha cara de que não se ligava nas notícias de verdade, provavelmente deixou a família morrer por culpa de seu orgulho. Tive que tirá-los de lá. Antes de poder viver ali, precisei limpar o lugar. Tirar os corpos do que um dia foi uma família de classe média.

Todos os dias eu saio de casa… Todos os dias eu busco pessoas. Busco outros como eu. Pessoas que sobreviveram. No caminho, limpo minha cidade. Tento, aos poucos, fazer o que o nosso governo não conseguiu. Para quem eu estou limpando? Para que eu faço isso? Não é para mim, com certeza.

A casa está ficando sem comida. Eu preciso de mais munição. Preciso reforçar a casa.

A cada dia que passa, eu vou mais longe e eles chegam mais perto. A cada dia que passa parece que eles ficam mais famintos, mais agressivos, mais perigosos.

Um grito.

São eles?

Não.

Dentro do carro. Entre a sujeira e os destroços, há alguém ali. Alguém está se mexendo ali. O grito se repete.

Eu corro.

Há um deles no carro. Dentro do carro. Como se tivesse acordado agora, como se só agora tivesse se levantado para a morte. Abro a porta e cravo a faca direto em seu crânio antes que possa reagir. O grito se repete.

Surpreso.

Olho para o banco de trás.

Uma criança.

É para ela que eu limpo a cidade. É para ela que eu vivo agora. Uma esperança. Eu preciso sobreviver para que essa criança possa viver.

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8 comentários sobre “[CENA] 25 – Sobreviver

  1. Nossa! deu vontade de ler as outras 24 cenas e acompanhar de perto essa estória. vc escreve muito bem. transporta a gente pra dentro do texto e da pra se sentir lah.. vendo todas aquelas pessoas correndo desesperadamente!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que texto tenso!
    “Eu preciso sobreviver para que essa criança possa viver.”
    Ainda há esperança, mesmo em meio a tantas coisas ruins.
    Fazer o bem vai fazer bem a nós e a quem está trilhando o mesmo caminho.
    Os maus são maus, mas não podem ofuscar os bons.
    Nunca apenas por nós mesmos.
    Sempre para uma contribuição muito maior: vidas.
    Parabéns pelo post!

    Curtido por 1 pessoa

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