[MUSAS] 01 – Um manuscrito que não sai

Antes de tudo, olá. Vamos começar agora uma série publicada semanal de uma novela que venho trabalhando há algum tempo: Musas – A arte de amar!

“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”

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A capital é uma metrópole acinzentada com cheiro de poluição, seus moradores já estão tão acostumados com seu cheiro que nem mais o percebem, mas qualquer pessoa de fora percebe uma mudança grave na atmosfera quando chega. As nuvens de fumaça se acumulam no céu se misturando aos prédios longos e escuros. Não é uma cidade feliz, não, mas não está em sua total decadência. Muitas pessoas buscam a vida ao se encontrarem na maior capital do país. O principal centro financeiro, uma das primeiras cidades desde a fundação do país. Centro de tudo que acontece.

A capital é uma cidade puramente urbana com pouquíssimos lugares arbóreos. Museus, cinemas, eventos de moda, shows, tudo acontece nessa cidade. Mesmo que você não tenha onde ir, sempre há o que fazer. Você sempre pode contar com uma cafeteria, algum show ou mesmo a estação de metrô para ficar ali esperando, mas é melhor não estar sozinho. A cidade é grande e, por isso, um tanto perigosa.

Naquela noite nada estava diferente.

Sempre igual, a cidade nunca parava por ninguém, só se movia cada vez mais rápido, fazendo com que seus moradores e visitantes tivessem que correr para suas casas, para seus encontros, para onde quer que eles tivessem que estar. Os sons eram infinitos, sempre uma constante barulheira, se não estivesse acostumado teria grandes problemas para dormir.

Allan Monteiro era um escritor em ascensão, seus livros de terror estavam chamando a atenção das pessoas nas prateleiras e ele já tinha ganhado um ou outro prêmio pelo terror em suas linhas, pela forma como transmitia o medo em suas histórias. Ele tinha saído da casa dos pais, no interior, para viver a vida na cidade grande. Um chamado especial, a editora tinha feito um evento especial para o lançamento de sua obra – um apanhado de seus contos macabros – e o acolheram. Seu editor dizia que eles tinham um olho importante nas obras do rapaz, queriam mantê-lo por perto. O gênero estava se reinventado no cinema, seria uma ótima jogada para a editora lançar obras que se encaixassem e ele tinha o perfil perfeito – o típico autor magro, com olheiras e aparência de quem precisava mesmo comer uma ou outra refeição a mais para ficar saudável, além das roupas escuras e a introversão. Allan era perfeito para a imagem que queriam passar.

Allan não tinha problemas com os sons da cidade, ele não tinha problemas com o cinza infinito que via através da janela de seu apartamento apertado, nem mesmo tinha problema com o frio que chegava naquela época, sempre pontual, mesmo estando sem camisa – seus ossos marcando muito bem a pele do corpo magro. Não, Allan não tinha problemas com a Capital, ele tinha feito sua vida ali… Allan só tinha um problema.

A página em branco.

Tinha assinado um contrato com a editora, parte das condições para que eles o ajudassem com sua mudança e em sua carreira, ele tinha que escrever mais dois livros em um período muito curto de tempo. Allan pensara que não seria um problema, tinha feito o primeiro volume acontecer em pouco mais de seis meses, mas ele se enganara.

Passara a se esconder do editor quando este ia visitar, não atendia suas ligações, tudo para evitar ter que admitir não estar escrevendo. Ele não conseguia, não tinha ideia do que escrever. Como poderia assustar aquelas pessoas? Allan não tinha dito, mas suas histórias anteriores eram memórias. Memórias dos causos que seu avô lhe contava quando mais novo, tinha se aproveitado dessas lembranças e exagerado em alguns pontos. As lendas de uma cidade pequena, as histórias que aconteciam no interior. Mas, agora, na cidade grande isso não funcionaria, ele precisava de material novo. Não podia deixar a chama apagar.

O apartamento bagunçado tinha o chão coberto por papel amassado, pequenos montes próximos da lixeira, mas vários outros espalhados por todos os lados. Ele tinha feito questão de ter um apartamento pequeno, não queria grandes luxos… Não saberia o que fazer com eles. Só precisava de uma cama, uma mesa e espaço para deitar enquanto pensava – Allan dizia que não se pode pensar em uma história na cama, você acaba dormindo e não encontra mais força para sair dali, não, isso precisava ser feito em um sofá. Essa história divertia seu editor quando estavam em pequenas reuniões, bebendo com figuras que se dispunham a patrocinar a editora com doações. Isso era importante. Eram negócios, puramente negócios, nada mais. Um quarto, uma cozinha apertada em uma sala que se tornava área de serviço e um banheiro, era o que compunha seu apartamento e, para ele, estava perfeito.

O rapaz apanhou um dos papéis do chão, o mais próximo de sua cadeira. Ele alisou a folha com a palma da mão, enquanto lia empolgado. Seus olhos corriam pela folha, um sorriso se formava receoso em seus lábios. E, então, ele se enraivecia. Suas palavras não faziam sentido, as frases não se encaixavam, a ideia funcionava, mas não conseguia aplicar de maneira que o agradasse. Ele rasgou a folha e arremessou o que sobrara de volta ao chão.

Allan se levantou da cadeira, estava cansado.

Olhou para o sofá e se deitou, encolhido em posição fetal, os pensamentos se embaralhavam e o enjoavam. Ele começava a se arrepender de ter assinado aquele contrato. Estava arrependido? Talvez, mas não queria admitir nem para si que fracassara. Não, teria que voltar para sua cidade e aturar as pessoas apontando – mais ainda – para ele, não pelo que escrevia, mas pelo que não escrevia. Ele não queria desistir, mas parecia fechado em um beco sem saída e sem luz alguma.


Chegamos ao fim do primeiro capítulo, o que acharam? Essa primeira parte da história está interessante? Trouxe curiosidade? Comentem!

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