[MUSAS] 02 – Pesquisa no Submundo

E vamos continuar com a história: Musas!

O capítulo anterior está disponível em: [MUSAS] 01 – Um manuscrito que não sai

A história também está disponível no Wattpad, já no quarto capítulo!


“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”

2

Quando um autor está atrás de sua inspiração, ele procura em todos os lugares. Em suas antigas histórias, em pessoas a sua volta, alguns até procuram a inspiração através de lanches e besteiras que comem durante a noite. Sério, procuram em qualquer lugar. Até mesmo naquela lata de lixo que parecia diferente das outras latas de lixo que já tinham visto na vida, qualquer coisa que possa estimular a criatividade pode ser a inspiração que precisam.

Allan não era diferente.

Os dias se passaram rapidamente sem que ele produzisse uma linha decente sequer, sempre reclamando da colocação das palavras e de como soavam falsas, artificiais e superficiais. Sentia uma grande diferença das palavras que fazia ali quando comparava as outras que tinha escrito ainda no interior. O tempo todo tentava afastar a ideia de que só conseguia escrever em sua terra natal.

“Idiotice”, ele pensava. “Escrever não depende de onde se está, mas como se está… Só preciso me concentrar… Eu preciso encontrar algo que valha a pena escrever de verdade”. E se jogava outra vez sobre o sofá de tecido marrom, revirando na poeira e encontrando farelos ao invés de ideias. Por fim, suspirava e ligava a televisão. Talvez alguma coisa no noticiário o fizesse ter um estalo, um surto, qualquer coisa que faltasse para que sua criatividade voltasse a funcionar. Sempre se podia contar com notícias terríveis para encontrar aquilo que faltava para uma boa história de terror.

Mas não naquela noite. Ah, como poderia? Passara tanto tempo se revirando e chafurdando nas páginas amassadas do chão do apartamento que tinha perdido a hora do noticiário. Na televisão, agora, só filmes. Comédias românticas. Comédias que não tinham sequer diferença entre si. Sempre o bonitão, a mocinha, brigas, reencontros. A mesma fórmula que constantemente era refeita para que a história acontecesse. Nada novo. Allan desligou a televisão e jogou o controle no sofá e olhou para fora. A mídia não contaria tudo o que gostaria de saber… Mesmo que ele esperasse pelo plantão da madrugada acabaria ouvindo só notícias políticas e as ações da bolsa de valores, nada que pudesse servir para inspirá-lo.

A Capital não se aquietava, ele podia ouvir o movimento constante da cidade pela janela. A metrópole não parava por seus problemas, nada nunca parava por ninguém. Ele também não podia parar, não deveria parar e esperar. Não, ele não ia. Pôs-se de pé e apanhou o casaco. Não entendia o que tinha feito com que levantasse, mas já estava calçando os tênis. A sensação de que havia algo lá fora esperando por ele fazia com que seu estômago se agitasse e ele quisesse correr, sorrir, gritar, tudo ao mesmo tempo. Allan apanhou as chaves do apartamento e trancou a porta.

A ideia de buscar nas notícias ainda estava firme em sua cabeça, mas já não achava que encontraria essas notícias nos jornais. Ele sentia que precisava de relatos, fazer laboratório – como chamavam – para encontrar a inspiração para suas novas histórias. As pessoas saberiam mais da realidade delas do que a mídia tentava mostrar. Encontrar o que faria o terror voltar não seria fácil, não era uma fórmula fácil, não. Ele não podia esperar que, na segurança do lar, o medo o atingisse. Não tinha medo de ficar sozinho, não tinha problemas com lugares apertados, gostava disso. Gostava mesmo. Ele precisava ir atrás.

Um caderno e um lápis na bolsa de lado, a carteira com seus documentos e quase nenhum dinheiro – andar com muito dinheiro sempre o assustava, tinha receio de que pudesse acabar perdendo mais do que a carteira caso acontecesse alguma coisa. Allan olhava pelas ruas, cada detalhe do mundo poderia interessar e cada pequeno pedaço das ruas poderia causar o estalo que procurava. As pessoas passavam por ele, algumas sorriam enquanto outras ignoravam sua presença, mas isso não o importava. Ele queria histórias, precisava delas, mas não eram aquelas pessoas, não, não aquelas pessoas que se misturavam as multidões do dia-a-dia. Como encontrar o terror? O que ele tinha que fazer para que o medo pudesse encontrá-lo? Ele precisava ir mais fundo se quisesse resolver seus problemas. Apanhou o último metrô, indo mais ao centro da cidade e tirou o caderno da bolsa enquanto seguia para o único lugar onde as coisas realmente aconteciam, o lápis se movia sem parar em sua mão, anotando e riscando.

O submundo.

Lugares aonde iam os desajustados, lugares onde as pessoas encontravam umas as outras e se reconheciam quando ninguém mais o fazia. Quando as luzes se apagavam, em algum outro canto da cidade, isso não era um problema. Era na escuridão que aquelas pessoas se sentiam a vontade, era no escuro que encontravam o conforto. Shows, bares e clubes noturnos. Praças públicas e parques abertos. Esse era o tipo de lugar que ele precisava frequentar para que encontrasse suas histórias. Para encontrar o medo, tinha que ir aonde o medo habitava.

Por várias noites ele se encontrou em bares reclusos, boates de má fama e clubes exclusivos. Não tinha problemas para entrar nesses lugares, Allan não era um “riquinho”. Ele até se parecia com o tipo de pessoa que procurava, embora não achasse que seria em alguém apático e magricelo que encontraria o caminho das letras. Palavras, ele precisava de palavras e sabia como usá-las. Nunca se atrapalhou quando conversava com os desconhecidos, era quando se tornavam próximos que tinha problemas.

Allan nunca foi o tipo popular enquanto crescia, “Corvo” era um de seus apelidos naquela época. De certa forma, ele tinha influenciado o apelido a surgir, uma referência a Edgar Allan Poe, um de seus autores favoritos. Indo contra as regras de não se criar o próprio apelido, ele fez um acordo com um dos garotos populares – em troca de ajuda com a prova de literatura – para que fizesse o nome pegar. Ele não se arrependia disso.

E ali, naqueles bares, usava o apelido como seu nome. Ninguém jamais dizia o nome verdadeiro para os outros, era outra realidade. Uma realidade onde as pessoas podiam ser quem queriam de verdade, sem as máscaras que vestiam quando se encontravam sob a luz da sociedade diurna. A pintura que vestiam, despia seus corpos dos pudores e medos. Allan, ou Corvo, fizera boas anotações em uma semana, quase duas, de pesquisa. As pessoas se sentiam confortáveis falando com ele e ele com elas.

O mundo era diferente ali. Allan passara de um autor sufocado pelas paredes envelhecidas do prédio em que morava para um homem empolgado que buscava nas pessoas a sua volta a inspiração real, encontrava o mundo que tanto retratava. Não é assim? O autor se fascina pelo que se parece com sua criação.

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