[MUSAS] 03 – A dona Aranha…

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“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”

3

Correria, muita gente no caminho, o espaço apertado. Muito calor apesar de estar esfriando muito rapidamente do lado de fora. A noite se adensava e a neblina se misturava a fumaça dos muitos cigarros que fumavam. Quase não sobrava espaço para os membros da banda passarem com seus equipamentos. A casa de show estava lotada e parecia que não iria parar de encher. A segunda banda corria para fazer a passagem de som, a primeira já tinha feito. Só esperavam tudo ficar pronto para começar.

Caía uma chuva fina do lado de fora, ninguém queria ficar nela então entravam. Resmungavam pela demora, resmungavam pelo frio, as pessoas se acotovelavam para chegar ao balcão e conseguir uma cerveja barata. Os ânimos estavam complicados naquela noite.

Havia um espaço para as bandas, entre o palco e o público, onde ficavam até a hora de começarem a tocar. Enquanto a segunda banda fazia a passagem de som, os membros da primeira banda esperavam. Cada um com seu próprio jeito de manter-se tranquilo.

O rapaz de cabelo trançado ajeitava as munhequeiras e bebia devagar a água da garrafa, a guitarra velha desconectada e pendurada pela alça em torno do corpo, não era seu primeiro show, mas estava nervoso. Não só ele, o resto da banda estava tenso. O careca batia os pés sem parar, olhava para sua bateria no palco e se sentia prestes a vomitar. A baixista balançava os cabelos arroxeados, o baixo preto nas mãos, e cantarolava de leve, tentando se acalmar com uma antiga balada dos Beatles.

— Hey, — o guitarrista falou —, é só mais um show. É só mais um show.

A baixista sorriu nervosa, mas não parou de cantarolar. O baterista pareceu não dar atenção às palavras do companheiro. Ele engoliu em seco. Os boatos de um caça-talentos naquele show com certeza afetaram não só a banda, mas também o público, havia muito mais gente do que o normal naquela noite. Eles precisavam fazer um bom show.

— Cadê a Néfila?

— Não precisa se preocupar, Tarântula, eu estou bem aqui — uma voz respondeu as suas costas. — Tudo bem, galera?

Os cabelos eram uma cascata avermelhada, as roupas seguiam as tonalidades de vermelho, preto e dourado. As cores da aranha tecedeira. As cores da Néfila. O sorriso largo em seu rosto parecia debochar da preocupação deles. Uma voz no palco chamou pela banda, 4 Spiders, para que começassem.

A ruiva ajeitou a jaqueta e subiu no palco, apanhou o microfone e esperou pelo resto da banda. Aos poucos eles a encontraram ali. O público parecia esperar por algo muito especial e Néfila parecia não se importar. Estava calma, relaxada, como se realmente fosse só mais um show e não o show que poderia mudar o destino da banda. O resto do grupo era diferente, no entanto. Com um nervosismo diferente eles começaram a tocar. Sentiam-se pressionados, atormentados pelas centenas de olhos que os observavam e ouvidos que os esperavam.

Começaram.

O som da banda parecia compensar o nervosismo, Tarântula era um bom guitarrista, mas não tinha um bom equipamento, sua guitarra tinha sido comprada com muito esforço e ele se preocupava demais com isso. A baixista, Anansi, acompanhava o som da voz de Néfila em suas cordas enquanto o som forte do Spider, o baterista, trazia poder para a música. Juntos eles eram uma banda de talento, mas cheia de preocupações. Exceto Néfila. A vocalista parecia sempre descontraída, desligada de emoções negativas e metida a assumir riscos desnecessários.

O show chegou ao fim sem grandes problemas, uma corda arrebentada na guitarra e um problema na fiação da casa de show deixou o microfone de Néfila desligado por alguns minutos. Quando a segunda banda entrou no palco, 4 Spiders se reuniu com a dona do bar, estavam enraivecidos. A falta de cuidados do lugar poderia custar à atenção do caça-talentos, poderiam perder sua chance por causa dela e de sua mesquinhez.

Spider estava a ponto de partir para cima da dona, uma senhora de cabelo pintado em um vermelho muito escuro e de compleição minúscula, quando Tarântula se meteu, tentando acalmá-lo. Ainda tinham alguma chance de conseguir, as coisas poderiam não ter sido tão ruins quanto pareciam. Talvez até o próprio caçador de talentos entendesse que eles não tinham culpa ou qualquer coisa assim. Néfila sorria, dando de ombros, enquanto se afastava da banda. Queria beber. Precisava de confusão, a discussão não a deixara tão animada quanto esperava.

Passando pelas pessoas, ela conseguiu um lugar no balcão, pediu uma dose de vodca e uma cerveja. Tomou sua dose e, abrindo a cerveja, olhou para o lado. Havia um rapaz, provavelmente da sua idade, encarando-a. Magro, cabelo escuro e profundas olheiras.

— E aí, beleza? — ela sorria — Curtiu o show? Qual o seu nome?

O rapaz inclinou a cabeça de leve antes de responder, ela falava muito rápido para o seu gosto. Néfila tomou um gole da cerveja. Ela estudava o rapaz, ele tinha algo que parecia divertido, ela poderia se divertir com ele. Uma noite ou uma diversão mais infantil? Ela ainda não decidira.

— Me chamam de Corvo — ele respondeu, pediu uma cerveja — Vocês são bons, mas eu não entendo muito de música.

— Então o que faz por aqui?

— Estudando — ele tomou um gole da cerveja, que escorreu pelo canto da boca, ele enxugou com as costas da mão — Você não entenderia.

— Qual é, cara, tenha um pouco mais de fé nas pessoas — ela riu — Você é algum agente secreto estudando uma vítima? Não, você é muito mirrado para ser um agente secreto… Ou sequer um agente. Talvez você seja um prostituto procurando por alguém atrás de seus dotes, não? É, eu aposto nisso. Você tem cara de que precisa de atenção. Um carente.

O Corvo ergueu uma sobrancelha para ela. Ela ria debochadamente dele. O que aquela garota estava pensando? Parecia gostar de provocar, parecia uma criança que queria confusão só por querer.

— Néfila, — ele começou — vai acabar ficando sozinha se continuar tratando as pessoas desse jeito. As pessoas não são brinquedos umas das outras, sabe? — dito isso, ele deu as costas a vocalista e se misturou com as pessoas no caminho.

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