[MUSAS] 04 – Tiro no Escuro

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“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”

4

Evitando as pessoas, empurrando os que não se dispunham a deixá-lo passar, ele saiu da casa de shows. Não ia ficar para a segunda banda, as últimas palavras trocadas com outra pessoa tinham-no deixado de cabeça quente. Não gostava de quando zombavam dele ou de quando tentavam assumir que era alguma coisa, passara a vida tentando não ser desvendável.

A garoa se tornou chuva, a neblina tinha se adensado tanto que só as luzes dos postes podiam ser vistas além do sem fim de cinza. As mãos fechadas em punhos dentro dos bolsos do casaco, o capuz protegendo as orelhas que o cabelo negro não cobria. O passo apressado, os olhos voltados para baixo, guiando-se pelo chão para não se confundir com as luzes amarelo-laranja. A cara fechada, a mente turbulenta cheia de pensamentos confusos, resmungos e muxoxos escapavam dos lábios do rapaz.

Aos poucos os sons iam ficando para trás, as vozes e acordes ficavam cada vez mais distantes e a rua ficava silenciosa. Um ou outro grupo de pessoas passava por ele, atrasados para os shows, outros punhados de pessoas se espremiam em vielas e se agarravam em momentos de luxúria tomados pela animosidade da noite e de erros que, no dia seguinte, se arrependeriam de cometer. Pelo menos eram os pensamentos que surgiam na cabeça do rapaz, via as coisas e imaginava situações, imaginava como encaixar cada detalhe do mundo em palavras que pudesse escrever. Distraía-se com os eventos simplórios do mundo e tomava notas mentalmente sobre como poderia aproveitá-los. Muitas vezes essas notas eram esquecidas logo que se sentava na frente do computador. A página em branco pesava em sua mente. O silêncio gritava. Uma história tinha que surgir, mas nada lhe aparecia.

Não conseguia encontrar.

Não conseguia encontrar o que tanto procurava. Talvez, ele pensava, talvez não soubesse mesmo o que estava procurando. Tinha ideias de grandeza, de inspiração repentina, mas isso realmente existia? Ele poderia mesmo encontrar nas sarjetas do mundo a história que poderia contar? Eram pensamentos soltos e bobos.

— Aí , cara — uma voz o surpreendeu.

O rapaz ergueu os olhos para frente, não tinha percebido onde estava. Sua cabeça distraída o confundira e levara a um beco sem saída. Tinha que ter reparado, xingou-se mentalmente, estava mais escuro. Uma esquina virada em falso e agora ele estava ali, ferrado. Se ele pudesse dar alguns passos para trás, poderia correr.

— Aí, cara, passa a carteira! — o sujeito a sua frente brandia uma pistola na sua cara, o aço escuro lhe causava uma sensação de pânico — agora!

Ele já tinha escrito sobre essas situações, já tinha imaginado muitas vezes como seria, mas nunca imaginou que passaria por algo do tipo, ninguém imagina esse tipo de coisa acontecendo consigo. Ele pensou em gritar, pensou em correr, mas o pânico tomava seu corpo, seu grito sufocara em sua garganta e suas pernas pareciam ser feitas de gelatina. Sentia o tremor em seu corpo. Encarava o sujeito. O pensamento desenfreado, em pânico começou a imaginar como algum de seus personagens teria se virado nessa situação.

Um homem magro e apático, parado em uma viela, abordado por outro homem, este com uma arma de fogo nas mãos, o aço frio pronto para aquecer com um pequeno puxão do dedo e prestes a expelir, em alta velocidade, mais metal, chumbo, aço, ferro, estilhaços que rasgariam sua carne.

— Passa a carteira, AGORA! — o bandido gritou a última palavra.

Suas mãos tremiam, ele tentou tirá-las do bolso do casaco, segurando firme a carteira, pronto para entregar ao agressor, mas, como se estivesse sendo escrita por ele em uma cena milagrosa, uma forte luz surgia em seu socorro.

Um único ponto de luz. Um forte rugido estridente de um motor. Uma motocicleta. Um motoqueiro ouvira o berro do assaltante e decidira se aventurar, pelo menos era o que se passava na cabeça do escritor. Ao ver a luz forte se aproximando, o bandido virou-se e tentou um disparo. Tremendo, ele errou o alvo. O som forte ecoou na viela e, ao longe, vozes começavam a se tumultuar.

— É melhor você dar o fora, antes que a polícia chegue, punk — a pessoa na moto falou — você vai ser a mulherzinha de todos na cadeia, sabia? Todo mirrado assim.

O bandido desatou a correr, fora do beco, para dentro da névoa, para longe deles, para o mais longe possível. O escritor acompanhou os passos do assaltante se perderem no silêncio da noite.

— Obrigado — ele disse, timidamente. Seu coração parecia querer saltar para fora, arrebentando as costelas no caminho — Ele não te acertou?

— Nah — A pessoa na moto desligou a luz e ele pode reconhecê-la.

Néfila, a vocalista metida da banda. Ele nunca tinha ficado tão contente em ver alguém que não tinha ido com a cara. Ele estendeu a mão para ela, como um gesto de agradecimento. Ela sorriu e apertou a mão dele.

— Você é o carinha lá do bar, né? Corvo?

— Meu nome é Allan — ele sorriu, ela se lembrava dele pelo menos — Obrigado mesmo pela ajuda.

— Sem problemas — ela tirou o capacete e estendeu para o rapaz — Vem, você precisa de uma carona, deve estar todo travado de medo.

— Eu não… — ele começou, mas se calou. Considerou a ideia. Não estava tão longe do apartamento, mas seria bom conversar com alguém. Ter companhia. E ela, olhando direito, não parecia tão má assim, pelo menos não depois de ajudá-lo.

Ele colocou o capacete, ela ligou a motocicleta mais uma vez. Ele montou e ela acelerou. Eles saíram rápido do beco, rápido demais para o gosto de Allan, que teve que se agarrar a moça para não cair. Ela riu e ele sentiu que, se não estivesse indo tão rápido, seu rosto teria avermelhado.

— Pode segurar direito, eu não ando a menos de 60km — ela gritou enquanto cortavam o ar pelas ruas, desviando de um carro ou outro — Só me diz onde ‘cê mora e se tem espaço pra mim.

Allan hesitou, estava surpreso com as atitudes da moça, mas indicou o caminho. Quando desceram da motocicleta, ele estava envergonhado. Nervoso, era a palavra certa. As palavras corriam em sua mente enquanto acompanhava ela para seu apartamento. Tinha achado inspiração? O medo? Ou a cantora?


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