[MUSAS] 05 – Escolhas

“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”


Se não ainda não leu os capítulos anteriores, acompanhe nossa história:

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5

Os dias passam correndo quando se vive agitado. Cada vez mais gente passa por você e você conhece menos delas do que pode imaginar. Um padeiro sempre é um padeiro, mas as outras pessoas que trabalham com ele, mesmo numa padaria de esquina, mudam constantemente. A mocinha bonita que estava ajudando em casa já não trabalha mais com o seu Joaquim, nem o rapaz de braços fortes carregava mais o gás para cima e para baixo das escadas dos prédios para o seu Waldir. A paisagem sempre muda, por mais que o ambiente pareça o mesmo, o cinza da cidade não muda, mas as cores que andam e são carregadas pelas pessoas estão sempre dançando de um lado para o outro.

Desde aquela noite em que Allan quase foi assaltado e Néfila – ou Michelle, já que agora eram amigos e se conheciam de verdade –, quase levou um tiro em seu resgate despreocupado, irresponsável e impensado, as muitas páginas em branco do apartamento do rapaz deram lugar a páginas cheias, recheadas de linhas e mais linhas. Eles passavam tanto tempo juntos que as pessoas achavam que estavam namorando, mas não.

Allan e Michelle nem sequer se beijaram naquela noite, mesmo com ela indo para seu quarto, para sua cama, ela riu do nervosismo do rapaz. Não tinha intenção de se deitar com ele, não daquela forma, precisava de um lugar para ficar e estava feliz em vê-lo bem. Ela era uma mulher difícil de interpretar, mas Allan parecia não se importar. Michelle tinha muito que contar e o escritor tinha muito que ouvir, ela era cheia de histórias, de experiências, de loucuras e manias.

Ele a ouvia em silêncio, ocasionalmente fazia anotações, a moça só dizia que queria ler antes que ele enviasse para a editora. Ela lhe contava as histórias assombrosas que vivera, ele conseguia – com pouco esforço – encaixar os elementos que faltavam para que o terror acontecesse. Tinha facilidade nisso, juntos eles contavam às histórias que precisavam ser lidas, ou pelo menos era como sentiam que tinha que ser.

Aos poucos a história enchia as linhas, aos poucos as linhas se formavam e contavam a história. Allan escrevia a noite, enquanto Michelle o observava deitada no sofá, ocasionalmente ela ligava a televisão que tinha levado para o apartamento miúdo. Reclamara da falta que fazia a música, assistir aos desenhos, Michelle era o tipo de pessoa que não conseguia parar, tinha que estar sempre fazendo alguma coisa, mesmo que essa coisa fosse simplesmente assistir televisão.

Os dedos do rapaz batiam rápidos no teclado, ocasionalmente ele apagava algumas coisas, resmungava, jogava os braços para trás e suspirava. Se cansava, ela entendia aquilo como um sinal e, de um salto, se erguia e o puxava da cadeira, empurrava-o para o banho e o fazia se vestir decentemente. Era a hora em que saiam. A hora em que se divertiam juntos pela cidade.

Em uma rara noite em que não estavam juntos desde cedo marcaram de se encontrar a noite, após ele terminar de digitar o grande número de palavras que se comprometia a escrever diariamente – um hábito que ele desenvolvera para que nunca ficasse sem escrever e perdesse o ritmo de uma história. Michelle chamara o autor para encontrá-la no bar em que se conheceram, mas ela não imaginava que ali fosse encontrar os membros de sua banda. E eles não pareciam nada contentes.

— Olha só, quanto tempo — Spider falou — Achamos que a dondoca nunca mais fosse dar o ar da graça. Por onde andou, Néfila?

— Dá um tempo, Tiago — ela deu as costas para ele e se voltou para o bar, pedindo uma cerveja.

— Não, não dou um tempo. Você não atende mais as ligações, você não se importa mais com a banda? — isso pesou na cabeça da moça, já fazia dois meses, ela sabia, mas não era que não ligasse… Eles só não tinham mais a mesma graça — Se quer levar a música a sério, precisa me ouvir.

Ela abriu a garrafa e, jogando a tampa no baterista, tomou um longo gole da cerveja. Não olhava nos olhos dele, ela tentava desviar o olhar da careca dele e dos olhares silenciosos dos outros dois membros da banda, Anansi e Tarântula. Sentia-se culpada, ela formara o grupo. Ela os fizera acreditar que poderiam ter futuro tocando juntos. O que ela estava fazendo com sua vida? Por que tudo parecia ser sempre tão descartável? Momentos iam e vinham, disso ela sabia… Tudo era tão passageiro… Ou ela era passageira? Nunca se prendia, mas será que as coisas se prendiam a ela?

— Você precisa se decidir, Néfila — Anansi disse — Se vai levar isso a sério ou se vai ficar brincando de casinha com aquele carinha. Ele vale toda essa atenção mesmo?

Michelle não respondeu.

— Nós estamos tentando te dizer, — Tarântula falou, de todos parecia o mais calmo, talvez o menos magoado. Era um homem sério, do grupo era o pensador, parecia entender a vocalista mais do que os outros podiam, isso sempre foi discutido pelos dois quando começaram a tocar —, nós temos uma proposta.

— Proposta?

— O caça-talentos entrou em contato conosco depois que você desapareceu pra dar uma de heroína naquela noite — Spider respondeu — Estamos tentando falar contigo, podemos gravar um single em breve, mas precisamos de você. Precisamos da sua voz. Precisamos da sua atenção, Néfila. Para de agir como se isso fosse uma brincadeira, a coisa ficou séria, tá me entendendo?

Um contrato. Um single. Gravação.

Era muita informação para que ela pudesse processar, tinha que pensar. Baixara os olhos para a cerveja em suas mãos, o sorriso desaparecera do rosto. De tudo o que já tinham dito para ela em sua vida, nunca algo fora tão importante quanto aquilo. Ela se imaginava cantando e gravando cds desde que era pequena, mas nunca achara que fosse realmente acontecer, não conseguia ver isso como um futuro real. Tinha sempre ideias e mais ideias, vivia de sua voz há tempos, mas não imaginava que pudesse fazer apenas isso para viver. Seria essa a chance que estavam lutando tanto para ter?

— E aí, você tá com a gente ou não? — o baterista perguntou, o rosto fechado em uma carranca intimidadora.

Ela ergueu os olhos para o resto de sua banda. Atrás deles seus olhos se encontraram com os de Allan, que acabara de chegar e acenava para ela, Michelle empurrou a garrafa nas mãos de Tarântula e saiu do bar.

— O que aconteceu? — Allan perguntou, nenhum dos três o respondeu.

Anansi bufou e, trompando em Allan, foi atrás da vocalista. Nenhum dos outros dois rapazes respondeu a pergunta do escritor, embora Tarântula tenha tentado. Sua boca se abriu e fechou algumas vezes, mas nada disse.

Spider encarava Allan com seriedade. O guitarrista de cabelo trançado, como se pressentindo o perigo, deixou a cerveja de Michelle no balcão e puxou o baterista pelo braço. Allan pensou ter ouvido algo como “ele vai ver só” quando eles passaram.


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