[MUSAS] 06 – Imposição

“Um escritor de terror busca novas ideias para seu próximo livro, andando pelas ruas imundas da cidade atrás de lendas e inspiração ele conhece uma vocalista rebelde com quem não se entende, mas o acaso e as atitudes dela acaba engatando a amizade deles.
Uma amizade conturbada pela vida e atrapalhada pelas pessoas. Pode o amor e a arte resistirem ao mundo?”


Se não ainda não leu os capítulos anteriores, acompanhe nossa história:

A história também está disponível no wattpad, já em seu oitavo capítulo!


6

Quando duas pessoas passam muito tempo juntas, acabam criando uma rotina juntos. Casais passam por isso, amigos passam por isso, acontece quando menos se espera. Seu dia acontece e você quer voltar e encontrar a pessoa e compartilhar com ela o que te aconteceu. É por isso que há tantos seriados de comédia na televisão em que os protagonistas são amigos que moram juntos ou muito perto e passam a maior parte do tempo juntos fazendo coisas que levam ao humor da produção.

Na vida real isso também acontece. Quem não conhece aqueles dois amigos que decidiram dividir um apartamento ou uma casa para economizar? Aqueles amigos que acabam sendo os anfitriões das reuniões do grupo, que parecem até um casal de velhos quando começam a discutir sobre as coisas que precisam fazer pela casa. Todos nós temos, em algum momento da vida, esses amigos… Mesmo que eles sejam um casal, não apenas amigos.

Allan e Michelle se tornaram esse tipo de amigos.

Eles saiam juntos, se encontravam nos lugares, passavam as noites em claro, discutindo as histórias que Allan tinha que escrever e conversavam sobre o mundo, sobre o que queriam fazer no futuro, o que tinham esperança de acontecer em suas vidas. Michelle gostava de atormentar o escritor, andava seminua pela casa porque sabia que ele ia ter um ataque de nervos – além de ser confortável – e ria da falta de habilidade social dele, enquanto ele tentava puxá-la mais para o mundo real, tentando fazê-la ver as coisas com mais clareza e pensar melhor no que ela ia querer fazer. Compartilhavam segredos, dividiam contas.

A rotina estava estabelecida naqueles poucos meses que viveram juntos.

Quando Allan voltou para casa naquela noite, após a aparente briga no bar, ele esperou por Michelle, preocupado. Passou o fim da madrugada e o amanhecer encarando o teto, o telefone ao lado da cabeça na cama, esperando que ela ligasse. Tinha deixado alguns recados, algumas mensagens, ela não vira nenhum. Ele nem percebeu quando se deixara adormecer.

Acordou já com o sol se pondo, dormira demais. Esfregou os olhos e bocejou. Ele levou alguns instantes para se lembrar do que acontecera na noite anterior, sua mão correu rápida para o celular, os olhos esperançosos. Nada. Michelle não o respondera.

Allan percorreu os olhos pelo quarto, as roupas de Michelle já não estavam mais ali. O canto do cômodo em que ela deixava suas coisas tinha sido limpo. Nos outros cômodos do lugar a mesma coisa acontecera. Era como se a amiga jamais tivesse pisado ali, a única coisa que poderia dizer que já houvera uma mulher no apartamento era o ralo do banheiro com um acumulo de fios de cabelo avermelhados – que tinha causado algumas discussões entre eles.

— Você vai deixá-la em paz — uma voz grave disse — Néfila não tem tempo para ficar brincando de casinha.

Spider estava parado à porta. Tinham se encontrado poucas vezes, mas Allan nunca o ouvira falar – exceto na noite anterior –, não entendera o que o careca disse.

— Perdão?

— Você precisa deixar a Néfila em paz — repetiu — Precisamos da cabeça dela focada, isso não vai acontecer se ela ficar brincando com um escritorzinho do interior.

— Olha, cara, você não pode falar assim comigo — Allan respondeu.

Ficaram frente a frente. Allan podia ser mais alto do que o baterista, mas esse era visivelmente mais forte do que ele. Se não soubesse se impor, o escritor não teria muito o que fazer caso acabassem brigando – o que ele sentia que poderia acontecer a qualquer momento, eles pareciam não ir com a cara do outro desde o começo.

— E vai fazer o que?

Os pensamentos de Allan corriam dos objetos que poderia usar como arma em uma possível luta, mesmo que seu corpo gritasse com todas as letras que ele não queria levar uma surra. Um estalo, Allan lembrou-se de algo que Michelle tinha dito algumas semanas antes – quando encontraram com o baterista em uma festa.

— Você não aguenta, né? — o escritor provocou — Levou um pé na bunda e agora é todo ressentido, não consegue vê-la com outro cara que já se sente todo ameaçado. Como se ela fosse voltar pra você. Sabe que isso não vai acontecer, Tiago.

O nome foi cuspido da boca de Allan, sabia que o baterista não gostava do nome e também que era realmente ressentido com o relacionamento fracassado com a cantora. Ele só não esperava que fosse ser atacado naquele momento.

Spider agarrou o escritor pela camisa e o empurrou, chocando-o contra a parede, o rosto travado em uma expressão de raiva e, se Allan tivesse que apostar, instinto assassino.

— Cala a boca — sibilou — Você não sabe do que tá falando.

— Eu sei que estou na minha casa e se me fizer qualquer coisa, posso te processar e arrancar todo o pouco que você tem — ele sorriu.

O baterista soltou o escritor e se afastou, indo para a porta aberta.

— Meu nome é Spider — disse, antes de sair — Fique longe dela ou eu não vou ligar para um processozinho.


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